27 de abril de 2014

Coringa: retrato jocoso do Mal

Por Sílvio Ribas Inspirado na carta do baralho "Joker" e no cartaz do longa expressionista "O Homem que Ri", de Vitor Hugo, o jovem desenhista Jerry Robinson - e não Bill Finger como sempre se afirmava - criou, em 1940, o maior vilão dos quadrinhos, o Co(u)ringa, inimigo nº 1 de Batman, criado por Bob Kane, em 1939. Com cabelos verdes, lábios muito vermelhos, palidez mórbida e trajes púrpura e laranja, o Coringa é um poço de ódio e amargura escondido sob a "máscara" de palhaço. O objetivo de sua criação era, segundo o próprio Robinson, "fugir do estereótipo de bandido muito freqüente nas estórias, que surgia para enfrentar o Homem-Morcego". Mas teve de enfrentar as ressalvas do governo, que receava que as personagens criminosas tivessem destaque igual ou superior aos dos heróis. Uma sucessão de assassinatos nos quais as vítimas envenenadas tombavam à meia-noite com um grotesco sorriso estampado nas caras de seus cadáveres: assim começava a primeira estória com o Coringa, publicada um ano após o surgimento do cruzado da capa, narrando uma sequência de mortes que serviam de cartão de apresentação do novo inimigo. Seus crimes seriam sempre marcados por pistas satíricas endereçadas a Batman. Tão cinqüentão quanto seu arqui-rival, o palhaço do crime é também o mais louco dos vilões: sem um passado conhecido do seu público e sem identidade reconhecível. Em determinado momento, foi feito uma cruzamento entre a estória do Coringa com a de outro bandido da HQ - o Capuz Vermelho, para dar-lhe uma "biografia", uma referência de suas origens. Nos períodos mais duros da censura oficial, esse bandido sádico e risonho, que muitas vezes prefere o terror coletivo ao dinheiro, tornou-se mais um gozador do que um assassino psicopata. O seu humor negro e o "show" de tiranias só ressurgiria no final dos anos 70. Brincalhão e sádico - Sobre o diabólico arlequim, a mais cruel personagem da HQ universal, pesam atrocidades como a recente morte de Robin/Jason Todd (1988) e o atentado que levou à invalidez de Bárbara Gordon/Batgirl (1989). Duas belíssimas obras: "Arkhan Asylum", de David McKean, e "Killing Joke", de Brian Bolland, trazem o "Princípe do Crime" como protagonista e ajudam a definir melhor essa surpreendente figura. Em "Arkham", ele atrai Batman para o conhecido sanatório-prisão de criminosos insanos, onde montou um terrível ardil. O Coringa tenta de todas as formas induzir seu inimigo a admitir sua paranóia, o que colocaria Bruce Wayne em pé de igualdade com os internos que combateu e ajudou a prender. Em "Killing Joke" Batman busca dialogar com o Coringa para pôr um fim na interminável guerra entre os dois, mas acaba sendo infernizado por uma piada mortal. Coringa, um insano vilão que se tornaria o oposto perfeito e a nêmesis de Batman, colaborando para mudanças marcantes na personalidade conturbada do herói, é agora o ponto central de uma obra antológica no mundo dos quadrinhos que influenciou decisivamente o filme "Batman", no ano do cinquentenário do Morcegão. Em "A Piada Mortal", o Dr. Watson de Batman - Comissário Gordon - eixo de sanidade entre ele e seu oponente - é premiado pelo Coringa com uma viagem rumo à loucura. Ele não descansa enquanto não concluir seu intento. Esse convite à loucura é estendido a Batman pelas suas "afinidades" com o cicerone - "A diferença entre eu, o louco, e o mundo, de normais, é que eu tive um dia ruim", diz o Coringa em determinado momento. Na HQ "Os Campeões do Mundo", o Coringa atua fora de sua cidade Gotham City, território defendido por Batman. Agora ele está na reluzente Metrópolis, terra do falecido Superman. Na sua aparição no clássico "O Cavaleiro das Trevas", de Frank Miller, ele é visto como um demente curado pela psiquiatria moderna. Ledo engano e nova fuga. A versão cinematográfica - Nas telas, encarnaram o genial e hilariante vilão os atores César Romero e Jack Nicholson, Romero no famoso seriado da TV dos anos 60 e Nicholson no primeiro filme de Tim Burton. Enquanto o primeiro compunha com outros atores consagrados o elenco da produção "camp" de Willian Dozier, Nicholson explorava com maestria o perfil nefasto do psicótico, com sensacionais tiradas e com o "psiqué du role" maléfico que inspirava o papel. Esse caráter foi explorado por Nicholson na sua participação em "As Bruxas de Eastwick" como o neurótico Daryl Van Horne, papel que o credenciou decisivamente o ator para viver o ensandecido criminoso no cinema. O Coringa literalmente roubou a cena em "Batman I", não só pela força inerente ao personagem mas especialmente pela interpretação bem superior de Jack Nicholson à de Michael Keaton como Batman. Enquanto o Coringa roubava cenas com seu olhar selvagem e suas gargalhadas, Keaton parecia um manequim de vitrine a exibir seu "biquinho" nas cenas mais empolgantes. Um ser dual - A dualidade do Coringa pode ser constatada não só no plano existencial mas também através de Batman. Enquanto ele revela externamente, no seu físico, o contrário do que seu pertubado interior, cheio de rancores, cultiva, enseja uma imagem alegre que, com Batman, faz o jogo de "duas faces da mesma moeda". Mas trata-se de um maniqueísmos às avessas: o bem parece mau com o negro do sombrio Batman e o mal parece bom com o colorido carnavalesco do Coringa. O principal "re-writer" do roteiro de "Batman I" - Warren Skaaren - justifica o fato do Coringa/Jack Napier ser na estória o assassino dos pais de Bruce Wayne como forma de reiterar uma inimizade visceral, dizendo que "quem poderia ser o seu maior inimigo senão quem matou seus pais?".

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