14 de março de 2019

Batman – O campeão da força de vontade


Por Sílvio Ribas

As missas da escola católica de meu filho, João, ocorrem sempre na primeira sexta-feira do mês. Nelas, os celebrantes fazem a sua homilia na forma descontraída, conversando com as crianças, que são a maioria dos fiéis presentes. Não raro sai desse bate-papo situações divertidas em razão da ingenuidade e da sinceridade da garotada. Mas tem um episódio que curti mais, quando meu menino se levantou para responder em alto e bom som à pergunta do padre sobre qual era afinal o superpoder de Batman, dentro de uma argumentação para valorizar o papel especial dos pais. “É a força de vontade! É a força de vontade!”, gritou ele. 

A resposta do meu pequeno soou estranha ao público e ao religioso, que continuou pedindo alternativas. Ouvi aquela reação sincera e entusiasmada dele com orgulho. João informou a todos o que aprendeu comigo, um pai também fã de quadrinhos. Aprendiz e herdeiro de minha batmania, ele aprendeu desde pequeno que o Homem-Morcego é apenas um ser humano, sem os superpoderes brandidos pela maior parte dos super-heróis de gibis. 

Em vez de ser um alienígena poderoso ou alguém que foi presenteado por um dom especial de outro personagem deste ou de outro mundo ou ainda de alguma experiência científica, o Cavaleiro das Trevas se tornou um herói por decisão própria e encontrou dentro de si mesmo sua força extraordinária, capaz de colocá-lo no mesmo patamar dos semideuses das histórias em quadrinhos, hoje explorados ao máximo por todas as mídias. 

Sempre gostei de enaltecer o lado inspirador de Batman pois considero ser esta a razão de seu gigante e perene sucesso ao longo de oito décadas. A dimensão icônica do personagem criado em 1939 por Bob Kane e Bill Finger só cresce com o tempo, deixando inúmeros exemplos de como ela afeta fãs em diferentes partes do mundo. Isso antes e depois da primeira onda de sucesso, nos anos 1960, em torno da série televisiva clássica, e da segunda, nos anos 1980, desencadeada pelo filme de Tim Burton (1989), no rastro da revolução trazida pelo lançamento da graphic novel Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller, que mudou o patamar do personagem e da indústria dos quadrinhos à época. 

A riqueza psicológica do super-herói é objeto de estudos em várias áreas do conhecimento. Batman virou um fenômeno de projeção das potencialidades humanas, símbolo da resiliência e da superação e arquétipo do homem capaz de testar todos os seus limites em nome de seus ideais e convicções. Ele deixa de maneira contundente e engajada uma mensagem típica da enaltecida pelos livros de autoajuda: a de que o ser humano pode bem mais do que acha que pode. 

Não é por acaso que a figura de capa preta e orelhas pontuadas é assumida por nobres voluntários dedicados a levar encorajamento aos pacientes de câncer infantil, como os de Belo Horizonte e Criciúma (SC). Não faltam provas de que o símbolo do morcego cura ao fortalecer o estado de espírito, o ânimo do paciente.

A essência humana emulada por Bruce Wayne, a identidade secreta do mito cultural que melhor representa a mitologia moderna, é a do indivíduo transcendente, que alcançou estados plenos de perfeição física, mental e espiritual e realizou façanhas consideradas até então impossíveis audaciosa e simplesmente porque ousou buscar esses alvos, porque sempre acreditou ser capaz de atingi-los. 

Esse personagem complexo e sublime atingiu com essa trajetória incomum um status muito amplo de universalidade e de sofisticação, desenvolvido hoje pela psicanálise, pelas artes plásticas e pelo universo pop como um todo. Tal qual os Beatles, Batman se converteu em um clássico eterno, que sempre será revisitado e sempre inspirará novas leituras e adaptações. 

Viva o Morcego! Viva a força de vontade dele e a nossa!