24 de julho de 2014

O Coringa no Funk

Por Lincoln Nery Em tempos de redes sociais que ajudam memes engraçados a se tornarem “vírus” que tomam conta de onde nossos olhos passam e por milhares de páginas por aí, um vem chamado atenção em especial, já que o Coringa, em especial o vivido por Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas (2008), parece ter se tornado uma espécie de mascote da cultura Funk, nascida em guetos, amada por uns e odiada por outros. O que me causou muita estranheza, já que a principio são dois “universos” que nada convergem entre si, mas uma “parceria” que anda crescendo dentro do Funk, o Coringa tem sido usado em páginas de frases, pensamentos e até em camisas não-oficiais espalhadas pelas cidades brasileiras, sempre ligadas ao estilo musical. Uma nota pessoal que quero compartilhar, independente se gosta ou não de Funk, algo a se pensar. Em 2004, estudei música com um senhor que foi aluno do mestre Heitor Villa-Lobos, e o indaguei se Funk era música. O professor me disse que sim, e que o Funk apenas não tinha bons compositores. Estudando um pouco mais, descobri que as raízes do Funk brasileiro são muito semelhantes ao do Samba, que nasceu entre os pobres da periferia, sendo execrado da alta sociedade, mas que com o tempo, se tornou base respeitada da chamada “Música Popular Brasileira”. Para responder sobre a utilização do Coringa como símbolo, procurei a Rádio Funk Brasil, que nasceu há quatro anos quando as rádios e o Funk eram de domínio carioca. Esse grupo foi criado como resposta aos sites de rádios em que se ouviam sujeitos, muitas vezes membros de facções criminosas, que proliferavam suas ideias ao público de seguidores. Em seus chats sempre havia guerras de facções, o que tornava o ambiente muito desagradável e espantava o público que apenas curtia o ritmo. O Funk já havia tomado parte de São Paulo e Minas Gerais, não apenas o Rio de Janeiro, e se espalhava muito rápido por outros estados, pensando nisso, saiu o projeto de uma rádio diferente, que tocasse musicas "alegres" com locutores de todas as partes do Brasil com exceção para carioca. Uma vez que não da para brigar com a grande potencia do Funk. Já que está tudo explicado, vamos à entrevista: Você sabe explicar o porquê de o funkeiros, principalmente em São Paulo, terem adotado a imagem do Coringa de Heath Ledger no filme O Cavaleiro das Trevas como símbolo? RÁDIO FUNK BRASIL: São dois os fatores que levaram a adotar esse personagem, ambos se referem a linguagem das ruas. Na cadeia ou até mesmo fora dela a tatuagem de um palhaço significa “ladrão”, “matador de policiais”. Já o Coringa é um vilão, e por se tratar de um palhaço juntou o "útil ao agradável", se enquadrou dentro do perfil dos jovens que apoiam a criminalidade e prolifera a apologia ao crime e as drogas. Você acha que essa imagem criminosa é válida para a cultura Funk? RÁDIO FUNK BRASIL - Não, de forma alguma. Não Acho que isso seja benéfico para o Funk mas infelizmente, os "cantores" em sua grande maioria já nasceram e foram criados no meio dessa criminalidade e suas músicas assim como RAP e outras manifestações culturais são carregadas com os sentimentos e imagens distorcida de falsos heróis, idolatrando o bandido e exaltando os traficantes. Por isso que o Funk foi se renovando hoje em outras localidades que não seja o Rio de Janeiro. É quase impossível se ouvir os chamados "Proibidões" e estão se destacando os “Funk de Putaria” (pegando um público jovem que está descobrindo a vida sexual) e os “Funk Ostentação” que engrandecem os artigos de luxo e materiais, coisa que os ouvintes em sua maioria nunca terão. Os fãs do personagem de longa data criticam muito, o fato de ele ser usado em uma forma cultural que nada tem haver com sua gênese. Você acha que os funkeiros têm essa percepção, ou não ligam para a opinião dos fãs de quadrinhos? RÁDIO FUNK BRASIL - Não. Os funkeiros não têm essa percepção, muitos deles nem sabem das existências de HQs, e o único contato com o personagem veio dos filmes contemporâneos.

Nenhum comentário: