23 de fevereiro de 2011

Beco do Batman


Sobrou para o Batman
Por Marlyana Tavares
Correio Braziliense, 23/02/11

Na Vila Madalena, em São Paulo, o beco que leva o nome do homem-morcego é um lugar perfeito para observar o trabalho dos grafiteiros e tirar muitas fotos dos muros coloridos

O passante que se dispõe a percebê-las em meio ao caos urbano encontrará outros cenários, figuras, situações e abstrações que se sobrepõem à azáfama do trânsito para se tornarem, elas mesmas, integrantes do cotidiano. Em muros, sob viadutos, no chão e em equipamentos urbanos, os grafites de São Paulo amenizam a crueza do asfalto, embelezam o cinza e transmitem mensagens.

Se para Rosa ela está em “horinhas de descuido”, para John Howard, “a felicidade é um muro branco”. Ele é um conhecido grafiteiro que começou a se expressar pelas ruas em 1975. Lá se vão uns bons anos e hoje, ainda que menos reconhecida no Brasil do que em outros países, a arte das ruas ganha impacto em vários bairros da maior capital do país.

Na boêmia Vila Madalena, descendo pela Rua Cardeal Arcoverde, o grafite aparece em viadutos, escadarias, muros e caixas de energia. No Beco do Batman (olha só a metáfora), com entrada pela Rua Harmonia, encontramos, numa gelada manhã de sábado, o tatuador Wagner Roza, de 25 anos, o motoboy Dhaner Reale, de 29, e a assistente administrativa Verônica Leão, de 25.

Tremenda sorte topar com os três em plena atividade: eles limpavam um dos muros para retocar o grafite de sua autoria. Sim, porque pelo código de ética, grafiteiro que é grafiteiro só renova o próprio muro. “Está vendo aquele grafite ali no portão? Foi feito pelo Nigas, um grafiteiro que já morreu. Mesmo que ele não esteja mais aqui, tem o respeito das ruas: ninguém vai lá pichar em cima”, garante Dhaner.

Dhaner, ou DRXIII, como se identifica em seus desenhos, prefere usar as tintas para louvar a natureza, com seus pássaros imaginários. O amigo Wagner, que assina o sugestivo nome de Legalize, se expressa em seus desenhos contra o poder, valendo-se de coroas e temas indígenas: “A coroa significa o poder, e o índio, o que o poder matou”, explica. Verônica, a Verishas, mulher de Dhaner, adora bonequinhas, flores e borboletas. O cozinheiro Miguel Bushatsky, de passagem por ali, aprova esse tipo de expressão. “Passava antes no beco e achava triste ver as paredes sem cor. O grafite não só harmoniza, mas transmite uma mensagem”, diz.

No Beco do Batman, podem-se ver as obras de Speto, Ninguém Dorme, Chivtz, Boleta, Presto e Zezão, entre outros. Perto dali, o Beco do Aprendiz, com entrada pela Rua Belmiro Braga, é uma profusão de desenhos, cada um mais instigante do que o outro. Entre os autores, estão John Howard e Titi Freak. Mais adiante, na Avenida Henrique Shaumann, um dos mais expressivos trabalhos é o do Studio Kobra, com suas imagens tridimensionais que se fundem com a cena urbana.

Um imenso painel em preto e branco, retratando uma rua comercial nos anos 1920, mistura-se à paisagem caótica da maior cidade brasileira. Os carros parecem atropelar os senhores de chapéu coco e as senhoras de luva de filó que passeiam entre as lojas. Quem passa por ali se mescla e se confunde com os passageiros do velho bonde gravado em um muro da Rua Belmiro Braga.

Além da Vila Madalena, o Cambuci é parada obrigatória para os fãs de grafite. As principais ruas do circuito são Lavapés e Justo Azambuja. Seus muros guardam a obra da dupla Os Gêmeos (Gustavo e Otávio Pandolfo) e de Francisco Rodrigues, mais conhecido como Nunca. Os três viveram ali e integraram a mostra Street art, em 2008, que estampou a fachada da prestigiada Tate Modern, às margens do Rio Tâmisa, em Londres.

Outros pontos cobertos por painéis coletivos e trabalhos curiosos são o túnel da Paulista, que leva à Avenida Rebouças; as ruas Galvão e da Glória, na Liberdade, bairro oriental; o Viaduto do Minhocão; as margens do Tietê e a Rua da Consolação.

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