28 de novembro de 2010

Artigo em revista da feira

Batman é humanamente possível?
Sílvio Ribas*

Christian Bale resumiu bem as duas principais dimensões de um personagem pra lá de famoso. Em sua breve apresentação na entrevista coletiva de pré-lançamento do filme Batman Begins (2005) em Tóquio, o ator galês disse estar honrado por representar um “mito moderno” e um “ícone cultural” com milhões de seguidores mundo afora. Nesse clássico do cinema dirigido pelo inglês Christopher Nolan o próprio Bruce Wayne também conceituou o arquétipo que incorporaria mais adiante, apontando razões para se tornar o maior herói da igualmente fictícia Gotham City, metrópole dos Estados Unidos.

O bilionário explicou que precisava ser “mais do que um homem”. Queria ser um símbolo, algo que fosse ao mesmo tempo inspirador e incorruptível. Mais tarde, o morcego seria a figura escolhida para definir o traje e o espírito de sua guerra pessoal contra o crime e a marca indelével de uma lenda presente nas histórias em quadrinhos e na nossa realidade. As declarações de Bale, intérprete de Batman em carne e osso, e a fala de Wayne, identidade secreta do mascarado, revelam o segredo de sucesso ininterrupto há 71 anos, com passagem por todas mídias e fases ditadas pelos gibis.

O homem-morcego da DC Comics, criado pelo cartunista Bob Kane e presente no imaginário universal, seduz o público há décadas em virtude de um perfil peculiar. A biografia do super-herói sem poderes herdados da magia, de alienígenas ou de um acidental milagre da ciência encanta até hoje gente de culturas diversas. Suas habilidades físicas e mentais extraordinárias são frutos de conhecimento acumulado, duro treinamento e arsenal tecnológico sustentado por pesquisas e a fortuna da família.

A resposta à pergunta do título é a que explica o sufixo “super” no também chamado maior detetive do mundo. Por detrás de todas suas atitudes ao aterrorizar criminosos há uma fortíssima força de vontade, capaz de mover montanhas, vencer exércitos e moldar uma vida inteira. Essa cruzada de fé parece ainda mais incrível por ter sido feita por um menino órfão e traumatizado. O rabino americano Cary Friedman, autor de Wisdom from the Batcave, é quem melhor disseca essa escolha transcendente.

Diante do túmulo dos pais, assassinados por um assaltante, Bruce decidiu consagrar toda a sua existência ao combate da iniquidade, para que outros não sofressem o mesmo. O desejo de vingança e o desalento se converteram em altruísmo e na busca por justiça. Mas o paladino nascido a partir de duas balas disparadas a queima roupa num beco escuro está longe de ser o modelo heróico mais conhecido.

Em sua dimensão trágica, ele veste o manto negro e nutre-se de medos ancestrais da noite para combater o que de pior foi gerado pela humanidade. A máscara é o rosto verdadeiro de Batman e Cavaleiro das Trevas, seu melhor epíteto. O roteirista Dennis O’neil acrescenta que a atração pelo herói está numa mistura improvável de visual demoníaco com a confiança dos oprimidos. Morcegos me mordam! Não há nada mais humano do que transcender pelo esforço e pela arte.

Afinal, Batman poderia mesmo existir no nosso mundo? A discussão já virou tema de livros e está em centenas de fóruns de aficionados na internet. A seriedade de especialistas recomenda levar em conta diversos elementos expostos nas aventuras do herói para concluir o óbvio: o mais provável dos vigilantes urbanos dos quadrinhos é possível, mas improvável. Em clássicos gibis como Morte em Família, Cavaleiro das Trevas, Piada Mortal, Hush, O Longo Dia das Bruxas, Ano Um e tantos outros estão memórias da coletividade.

Uma mente perturbada como a de Batman poderia existir. Difícil de acreditar numa escalada de sucessos para defender a integridade de seu refúgio numa caverna localizada estrategicamente no subsolo de sua mansão e no combate cotidiano matadores covardes e terroristas com a prerrogativa de “nunca matar”. A loucura se espraia em vilões fantasiados de animais, palhaços e personagens da história e da literatura.

Esse cara que luta com bandidos armados de elevadíssimo calibre lança bumerangues em forma de asa de morcego e cápsulas de gás para fazer seu espetáculo de dissuasão com destreza? O herói acrobata usa uma capa enorme que não o cria embaraços nos dois sentidos e distribui socos e pontapés certeiros e de elevado impacto. Atleta e artista marcial em múltiplas categorias, Batman vence virtualmente qualquer um no mano a mano e é o Houdini dos tempos modernos ao escapar de qualquer armadilha.

Ele comeu o pão que o diabo amassou, recebeu golpes que estão gravados em dezenas de cicatrizes no tronco, braços e pernas e ainda treinou aliados como menino prodígio Robin para o campo de batalha. Não tombou em definitivo e segue até os dias de hoje protegendo Gotham do Coringa, seu arqui-rival, e de outra tantas ameaças, com objetos especiais e veículos de ar, terra e mar.

No livro Becoming Batman: The Possibility of a Superhero, Paul Zehr, professor de cinesiologia (ciência dos movimentos do corpo humano) e neurociência da Universidade de Vitória, na Columbia Britânica (Canadá), vê o homem-morcego como um competidor do decatlo. Ser campeão em força e rapidez ao mesmo tempo intriga o pesquisador, que aposta em 10 anos de treinamento para chegar ao nível de proeza sugerido. Se considerar as habilidades em escapar de armadilhas e dominar técnicas de criminologia, disfarce, química e outros tópicos, seu manual sugere que esse prazo pode subir para até 18 anos.

O fato é que acreditamos na remota possibilidade de esse homem, rico e habilidade, realmente poder existir. Se o improvável nos quisesse colocar dúvidas, lembramos que o Morcegão abusa de teatralidade, explorando a ilusão das sombras e do medo para driblar facas e rajadas de metralhadora. Essa é a insuperável seara dos quadrinhos, onde o leitor é convidado como Alice a adentrar um país de maravilhas. Mesmo o realismo sendo perseguido por desenhistas e roteiristas nas histórias de Batman desde os anos 1970, o aspecto fantasioso e até místico trespassa, alimentando o mito.

Se não é “super” em conseqüência de dávidas externas, mas por tomadas de decisão, o herói também pode ser um baluarte de sonhos para crianças e adultos. Basta vestir a fantasia para começar a se sentir meio Batman. Não há dúvida de que isso explicaria o fato de a maioria dos meninos preferirem brincar com a capa de a máscara deste personagem. Os anos passam e a magia do cruzado continua pelas páginas de quadrinhos.

A parte mais concreta disso tudo, do lado de que cá do espelho, é uma indústria bilionária a explorar a iconografia do herói. Do cinema aos games, dos quadrinhos aos produtos licenciados, dos DVDs aos livros de bolso. Batman é tão presente que já se deu ao luxo de virar paródia cotidiana de peças de teatro e filmes de baixo orçamento, além de ser mote para charges e músicas de banda de rock.

E ainda se é possível encontrar um mito dentro do mito, ainda temos a trajetória de Adam West, o ator que entrou para a eternidade como sendo o Batman da vida real, graças ao sucesso de sua interpretação no seriado cômico da TV nos anos 1960. O maior especialista no mundo sobre esse fenômeno, o brasileiro Jorge Ventura, autor do livro Sock! Pow! Crash! Batman é humanamente possível na sua multifacetada projeção de tantos anseios, angústias e talentos humanos. E improvável em carrega-las todas em um só homem.

* Jornalista e autor de Dicionário do Morcego (Flama, 2005)

Um comentário:

Pedro Henrique Leal disse...

"Acreditamos em heróis, porque no fundo acreditamos em nós mesmos" - Jack Kirby

Acho que parte da "vitalidade" do Batman se dá por ele ser "aquilo que queriamos ser". Seja como Bruce Wayne, ou como Batman, muito do personagem é um "realização' de um sonho, a ponto de que algumas pessoas, incluindo alguns escritores da DC durante a era de prata dos quaadrinhos, esquecem dos problemas do personagem, e só lembram do milionário, e do homem que sozinho trás justiça para gotham (mas que na verdade, o faz por servir de exemplo para a população, ou não produz resultados, dependendo do autor).

Mas é claro, eu não sou o especialista aqui, e acho que to falando um monte de bobeira.