19 de agosto de 2010

A verdadeira Gotham


Por Renato Corrêa
da revista Galileu


A Gotham City dos filmes de Batman é uma grande metrópole, de arranha-céus cinzentos e pontiagudos e tem a indefectível imagem do morcego no céu em noites em que o crime impera. Tudo muito diferente da verdadeira Gotham que a inspirou. Esse vilarejo, que fica próximo à cidade de Nottingham, na Inglaterra, pode não ter nada a ver com o homem-morcego, mas também tem um passado fora da lei. Com 2 mil moradores, a vila, a 200 quilômetros de Londres, é hoje habitada por agricultores que cultivam batata e beterraba e se espalham por pouco mais de 800 casas ao redor da igreja de St. Lawrence. Há cerca de 800 anos, o rei João Sem-Terra arrochava seus súditos com impostos pesados. Uma das lendas mais famosas do local conta que, fartos de deixar seus ganhos com o soberano, os habitantes de Gotham pararam de pagar as taxas, o que levou sua majestade a marchar com seu exército em direção à cidade. Apavorados com a possível retaliação, os moradores chegaram a um acordo para evitar o pior: se fingiriam de loucos.

Quando o rei chegou ao vilarejo, teria deparado-se com cenas das mais esquisitas. Vacas foram colocadas no telhado das casas para pastar. Homens construíram uma cerca ao redor de uma árvore para aprisionar um relógio cuco, pois queriam ouvir seu canto para sempre. Pescadores se esforçavam para afogar uma enguia. O rei entendeu muito pouco de tudo aquilo e decidiu buscar uma explicação. Um de seus súditos abordou, então, um camponês, montado sobre seu cavalo, que carregava ele mesmo duas sacas de trigo nas costas. Indagado, respondeu que era para não cansar seu animal com o excesso de peso. Era como se o Asilo Arkham (aquele manicômio para onde eram levados os vilões insanos dos quadrinhos de Batman) tivesse aberto as portas e soltado seus internos na verdadeira Gotham. Nada fazia sentido.

Naquela época, acreditava-se que a loucura fosse contagiosa. Com medo de ficar pirado também, o rei abandonou o local e desistiu das taxas. A partir daí, Gotham ficaria conhecida nas imediações como a “vila dos loucos”. As peripécias dos habitantes foram narradas inúmeras vezes na tradição oral e em músicas folclóricas. Mais tarde, seriam organizadas em coletâneas escritas. Dois dos livros mais famosos sobre os episódios foram Towneley Mysteries (Mistérios de Towneley), publicado no século 15, e Merrie Tales of the Mad Men of Gotham (Contos dos Loucos de Gotham), do século 16, ambos de autores desconhecidos e sem tradução em português. Com a propagação da história, os moradores ficaram conhecidos como “os sábios de Gotham” ou “os loucos de Gotham”. Parece que estavam mais para espertinhos esses camponeses que moravam perto da floresta de Sherwood (aquela da lenda de Robin Hood, o ladrão que tirava dos ricos para dar aos pobres, e que surgiu exatamente por conta dos altos impostos cobrados pelo rei).

Tá, mas o que Batman tem a ver com tudo isso? O nome da cidade dos loucos foi parar nos quadrinhos por caminhos tortuosos. Foi com a história inglesa na cabeça que o escritor norte-americano Washington Irving (1783-1859), autor do clássico A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (que virou filme com Johnny Depp no papel principal), deu o carinhoso apelido de Gotham à sua cidade natal, Nova York, na revista literária Salmagundi, em 1807. Como o escritor soube da pequena vila? “Ele passou umas seis semanas hospedado perto daqui, na Abadia Welbeck, uma das casas do poeta Lord Byron”, diz Barry Dabel, membro da Sociedade pela História de Gotham. “Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York, confirmou a ligação entre as duas cidades em um fax que nos enviou em 2000”, diz Dabel.

O apelido pegou em Nova York e muitos estabelecimentos da época emprestaram o nome Gotham. Foi quando um dos criadores de Batman, o americano Bill Finger, usou-o para ambientar suas histórias. A cidade do homem-morcego sempre tinha sido Nova York, mas Finger queria uma nova metrópole com a qual mais leitores pudessem se identificar. Para isso, cogitou nomes como Coast City, Capital City e Civic City. Folheando uma lista telefônica, encontrou sua inspiração: uma joalheria chamada Gotham. De acordo com Les Daniels, autor do livro Batman — The Complete History (Batman — a História Completa, sem edição em português), Gotham City foi citada pela primeira vez numa revista do herói em 1941. Desde então, foi reinventada diversas vezes. “A ideia por trás dessa metrópole da ficção é que ela seja uma síntese das grandes cidades norte-americanas”, diz Roberto Elísio dos Santos, especialista do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Universidade de São Paulo (USP). Ao longo do tempo, esse ambiente mudou muito.

Nas histórias dos anos 50, era um lugar iluminado e ordenado. Nos anos 1980, a Gotham de Bruce Wayne foi ficando cada vez mais soturna e repleta de prédios de arquitetura gótica. Chegou ao ápice com a versão para o cinema de Tim Burton (1989). “A cidade foi refletindo a personalidade do herói, também mais sombria.”

Foi daí que veio um dos erros mais comuns sobre a origem do nome da cidade. Por conta dessa primeira adaptação de Batman para o cinema, criou-se o mito de que Gotham viria de “gótico”. A real etimologia é um pouco mais humilde. “Gotham significa casa de bodes”, explica Dabel. Got vem de goat (bode, em inglês). Tudo a ver, portanto, com uma vila camponesa. A Gotham fictícia, criada para ser o lar de Batman, teve, sem querer, um temperinho medieval, como o vilarejo que a inspirou. O maior inimigo do herói, o personagem Coringa, chama-se originalmente Joker, que em inglês designa o bobo da corte. Esse tipo de profissional, durante a Idade Média, era a única pessoa que podia zombar do rei sem ter sua cabeça cortada — do mesmo jeito que fizeram os antigos habitantes da real Gotham.

Comentário do blog: colaborei com o autor da matéria.

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