25 de abril de 2009

A história não lembrada de Batman

Por Roberto Guedes

A primeira imagem desta mensagem faz parte da página splash da revista Batman 208 (janeiro/fevereiro de 1969), dos estertores da Era de Prata. É a primeira e única aparição de uma tal “sra. Chilton”. Uma história muito interessante que recontou a origem do Homem-Morcego, desenhada por ninguém menos que Gil Kane, e escrita por E. Nelson Bridwell.

Essa edição foi especial, com mais páginas, e intercalou texto e arte inédita com material antigo, para explicar diversos pontos do rico background do herói acumulados durante anos até aquele momento. No decorrer da trama, você fica com a impressão de que a velhinha é maluca. Mas ela realmente não está brincando quando diz que é a “mulher mais importante” da vida do Morcegão. Pode apostar que sim. Mais que Marcia Monroe, Julie Madison,Vicki Vale...

O fato é que essa desconhecida sra. Chilton era uma governanta do Dr. Philip, tio de Bruce Wayne. “Sei...”, está você sussurrando meio desconfiado, não é? Bem, foram esses dois que acolheram o jovem Bruce quando Thomas e Martha Wayne foram assassinados pelo assaltante na saída do cinema.

Chilton era obcecada pela figura misteriosa do Cruzado Embuçado e mantinha um álbum de recortes com notícias do vigilante, notadamente, de seus casos com mulheres famosas: Julie Madison, Hera Venenosa, Mulher-Gato etc. Por isso, quando Batman começou a atuar em Gotham City, ela sacou na hora que ele só poderia ser Bruce Wayne, lembrando, entre outras coisas, de seu dramático juramento na cova dos pais. Porém, Bruce não tinha idéia de que ela sabia de seu segredo – e de tabela, o de Dick “Robin” Grayson também.

Bah... grande detetive... Mas a bomba vem agora: a distinta sra. Chilton era a mãe de dois criminosos que cruzaram a vida de Bruce (e que, quando enveredaram pelo crime, mudaram o sobrenome): Max e Joe Chill. O primeiro, morreu durante um confronto com Batman muito tempo antes. Já o segundo... tratava-se do próprio assassino dos pais de Bruce. Sim... ele mesmo!

Por ironia das ironias, a mãe do assassino do casal Wayne foi quem criou o desesperado órfão. Anos depois, Joe Chill seria novamente reapresentado na primeira minissérie (em três partes) do Vigilante de Gotham Untold Legends of Batman, que por aqui a EBAL publicou como A Legenda de Batman numa única edição. Porém, não houve nenhuma referência ou citação à dona Chilton.

Talvez haja uma explicação para isso. Nas páginas de Detective Comics 457 (março de 1976 – data de capa), Denny O’Neil e Dick Giordano introduziram a personagem Leslie Thompkins na cronologia de Batman, como a mulher que acolheu Bruce logo após a morte dos pais, e que, em posteriores retcons, seria definida como àquela que, ao lado do mordomo Alfred, criou o garoto.

A história com a estréia de Leslie é bem comovente, e mostra o lado mais humano do personagem principal. Aqui no Brasil, foi publicada pela primeira vez quase em seguida pela EBAL, em Batman 3ª série 78 (abril de 1976), como “Não há escapatória no Beco do Crime” (o mais apropriado seria “Não há esperança no Beco do Crime").

Essa HQ, sem dúvida, acabou por suplantar em importância a anterior da Sra. Chilton. Além do mais, o fato de O'Neil ter comandado as revistas de Batman por vários anos, também contribuiu, de algum modo, para o desaparecimento de Chilton.

O que entendo disso, é que, assim como Chilton foi ignorada pelo pessoal da DC, toda a história do Batman também foi adaptada e/ou adulterada no decorrer das décadas seguintes. Principalmente a partir de 1985, com a publicação da supersérie Crise Nas Infinitas Terras.


De acordo com meu chapa do HQManiacs, Leonardo Vicente, até mesmo Joe Chill chegou a ser “apagado” da continuidade DC nos anos 1990, para voltar com tudo, mais recentemente, em outra série: Crise Infinita.

Como a onda na DC Comics é resgatar velhos conceitos das Eras de Bronze, Prata e Ouro, resta-nos a esperança de que alguém por lá se lembre da coitada da sra. Chilton – que não criou bem o seu filho, é verdade, mas que fez um bom trabalho com Bruce, convenhamos –, e a encaixe em algum lugar dessa complicada, mas não menos fascinante, batcontinuidade.

OBS: Este texto foi redigido originalmente em 2008, para algumas listas de bate-papo sobre Quadrinhos, sendo revisado e atualizado pelo próprio autor.

Fonte: blog Guedes Depoimento

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