27 de dezembro de 2008

Notas sobre quirópteros


NOTA DO BLOG: Encontrei no fundo do baú esse texto abaixo, que escrevi no começo dos anos 90, reunindo informações sobre "o mais surpreendente mamífero" depois do homo sapiens. A maioria dos dados foi tirada de entrevistas na TV, que assisti com muita atenção. Naquele tempo, não havia internet nem eram tão comuns os computadores. Alguém tem algo para me atualizar?

Apontamentos sobre morcegos

Sílvio Ribas

Poucos sabem, mas três quartos dos mamíferos do planeta têm hábitos noturnos. Dentre estes, o mais famoso é o morcego, o único do grupo ativamente capaz de voar. E, curiosamente, o primeiro cientista a provar que eles não eram aves e sim mamíferos foi Aristóteles. Outra curiosidade é que por ser rico em nitrogênio e fósforo, seu excremento era utilizado no século passado na fabricação de pólvora por habitantes próximos a cavernas e grutas.

Cientificamente, os morcegos são conhecidos por Quirópteros (Quiro = Mão + Ptero = Asa). Com um ancestral comum ao homem há 95 milhões de anos, o morcego possui 875 espécies - sendo 70 destas existentes no Brasil - somando no mundo 19 famílias e 173 gêneros. Estas criaturas da noite (embora exista uma espécie não-nictobata) representam, por exemplo, aproximadamente 30% dos mamíferos existentes na América Tropical.

Os morcegos são classificadas de acordo com seus hábitos alimentares, isto é, sua dieta ou presa principal ou exclusiva: insetos, frutos, peixes, néctar e sangue. Os grupos decorrentes são, então, os insetívoros, frutívoros, nectatívoros, carnívoros (rãs, outros morcegos, roedores etc.) e hematófagos (vampiros).

Animal pequeno, escuro e de forte odor, o morcego é antes de qualquer coisa um grande caçador. Para se ter uma idéia desta característica, basta lembrar que os consumidores de peixes (pescadores) comem em torno de 40 por noite. Já o morcego insetívoro devora cerca de 200 a 600 insetos por noite e o que se alimenta de rãs costuma caçar até 90 por semana.

Algumas espécies estão ameaçadas de extinção por que os morcegos só se atingem a sua maturidade sexual a partir dos três anos e a fêmea gera um filho por vez, uma ou duas vezes por ano, com gestações que variam de 80 a 210 dias. A maioria dorme de cabeça para baixo, graças a tendões especiais em seus pés. Alguns chegam a morrer e a permanecer nessa posição, que é a que ele passa mais tempo em vida. Podem levantar vôo vertical e alguns podem até nadar.

SONAR

Uma de suas principais características dos morcegos é a de emitir ultra-sons que servem para detectar a presença de obstáculos no escuro, ou para localizar suas presas. Os sons que emitem para se orientar são gerados na laringe e transferidos pela boca ou narina. A intensidade de suas emissões varia entre 20 e 180 Kilociclos. Este processo é conhecido por eco localização". Em outras palavras, os morcegos podem "ver" pelos sons. Mas também podem distinguir outro animal pela língua (paladar).

Do ponto de vista ambiental, o morcego é um animal que possui uma relação explicitamente positiva na Ecologia. O morcego frutívoro é o principal formador de florestas, pois é o principal polinizador de bosques, reflorestando inclusive áreas desmatadas. Isto porque costuma lançar ao solo em torno de seis mil sementes por noite. Uma grande variedade de populações de insetos são controladas pelos quirópteros. Um dado interessante: sabem evitar as rãs venenosas através da decifragem do tipo específico de som que estas emitem.

Pesquisas recentes mostram que os morcegos podem ser domesticados e não são inteiramente cegos, como se supunha. Eles podem se ambientar em ambientes com luz vermelha, pois traz a impressão de escuridão. As asas do morcego são formadas por uma pele fina, mais que uma luva cirúrgica de borracha, mas não é fácil de se furar, além de se reconstituir rapidamente. As línguas dos morcegos chegam a ter o tamanho equivale a um terço de seus corpos.



VAMPIROS

No Brasil existem três espécies de morcegos hematófagos. O morcego vampiro possui 22 dentes sendo os maiores os incisivos. Sua saliva é anti-coagulante. Possui um sensor de calor na narina para detectar o sangue. Ele lambe e não chupa o sangue, como costuma-se dizer, podendo sorver cerca de 50% de seu peso (o peso médio é de 35g). Para sorver o sangue, o morcego provoca um pequeno ferimento no animal e, durante 15 a 20 segundos, ingerindo até 30 mililitros. O morcego hematófago só ataca o homem quando há uma super-população e padece de fome ou quando é atacado.

O Vampiro, cujo nome científico é Desmodus Rotundus, é um morcego de grande porte e aspecto repelente, da família dos Filostomídeos (28 a 34 dentes e apêndice nasal bem desenvolvido). São três gêneros: Diphyla, Desmodus e Dialmus e Desmodus Rotundus. Os hematófagos são os desmodentídeos.

Tal espécie possui as seguintes características distintivas como o dedo médio de sete falanges completamente ossificadas, uma saliência na folha do focinho, um pequeno e rudimentar apêndice nasal em forma de disco, incisivos estreitamente contíguos e grandes e falciformes, molares, rudimentares e ausentes. O total de dentes varia entre 20 e 26.

O vampiro é o mais comum entre os hematófagos (que se alimentam de sangue). Para fisgar sua vítima, pousa em silêncio quando ela está dormindo, tocando-a apenas com a planta dos pés e os calos dos polegares. Com os dentes incisivos superiores, cortam a pele onde é mais fina, fazendo um corte de aproximadamente 13 mm de comprimento por seis de largura e cinco de profundidade. Aplica os lábios na ferida e lambe. Sua saliva possui qualidade anticoagulante, representado uma perda de 60g por animal cada vez que é ferido. Persistente, ele sempre procura a mesma vítima e a ferida continua sangrando pelo menos meia hora após a picada.

RAIVA

Os morcegos vampiros são potenciais transmissores de hidrofobia (raiva) e podem também atacar os homens. A raiva transmitida pelos morcegos tem ciclos de expansão de 10 em 10 anos com a super-população destes animais. Somente nos casos de excesso de contingente é que o vampiro ataca o homem.

Quando existe um desequilíbrio na cadeia alimentar, como a criação, pelo homem, de rebanhos de gado, a população de morcegos hematófagos se expande exagera e desproporcionalmente. As autoridades sanitárias e ligadas à agricultura e veterinária promovem caçadas deste animal para controlar seu desenvolvimento populacional.

A captura deste útil animal - e circunstancialmente nocivo - pode ser feita com redes finas de nylon presas em postes de bambus sobre trilhas e águas. Assim, pode-se pegar de 25 a 30 morcegos por dia. A freqüência de vibração das varas desnorteia o morcego. Este teste pode ser feito também com aparelhos de geram freqüências sonoras específicas.

O controle dos morcegos hematófagos é geralmente feito com a utilização de uma pasta anti-vampírica aplicada no dorso de um exemplar capturado. Ao ser solto, ele retorna ao seu bando de origem e contamina outros vinte que vêm a se esfregar nele ou mesmo lambê-lo. Exemplo deste trabalho é o dos órgãos públicos de apoio à atividade rural, tais como ministério e secretarias de Agricultura ou institutos de pesquisa do setor.

Os vampiros são em número bem reduzido. Dos cerca de seis mil de morcegos existentes na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, apenas 60 são vampiros, isto é, em torno de 1% do total. No Rio, os principais tipos de morcegos são os seguintes: "de casa", frutívoro, pescador, beija-flor, cauda-de-rato, lambe-lambe e, finalmente, vampiro.



FONTES

- Entrevista no programa Jô Soares 11 e Meia, SBT, do biólogo Carlos Esverate (Casa Noturna do Rio), levada ao ar no dia 22/12/92 (Rio).
- Entrevista no programa Sem Censura, TVE, do professor Rogério Serrão Piccinini, diretor da UFRRJ, levada ao ar no dia 03/11/93.
- Enciclopédia Britânica.
- Programa Globo Repórter, Rede Globo - 15/11/91 (Secret World of Bats, programa da BBC de Londres).
- Almanaque do Bode, boletim do Sindicato dos Telefônicos - 1993 (Sinttel-MG, Belo Horizonte).
- Planeta Vida - TV Cultura (03/02/93).

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