6 de junho de 2008

Entrevista ao site Gotham City

fonte: www.gothamcity.com.br

Como foi a gênese da obra Dicionário do Morcego? Qual foi a parte mais árdua do processo?

O livro é resultado de um sonho antigo, que eu mantinha por mais de dez anos, desde os tempos da faculdade (Jornalismo – PUC Minas). Eu participava de um fã-clube de Batman por correspondência, o Correio Gotham, com sócios de Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Propus ao grupo que elaborássemos um glossário sobre o universo do herói, ficando eu responsável pela compilação dos dados fornecidos por todos. O projeto não foi adiante devido às dificuldades daqueles tempos pré-internet e as contingências da vida de cada um. Guardei a idéia comigo até que meu amigo e ex-colega de Gazeta Mercantil Gonçalo Júnior, maior especialista em quadrinhos do Brasil, me incentivou a retomar o trabalho, que era apenas um arquivo Word no meu computador. A proximidade do filme Batman Begins também ajudou a viabilizar o Dicionário do Morcego. Foram dez meses de pesquisa e análise sobre o material que tinha acumulado por anos. O mais difícil foi cruzar informações de origens distintas para se chegar ao resultado mais preciso possível.

Os brasileiros têm uma identificação muito grande com o Batman. Em que você acredita que é baseada essa admiração?

A simpatia de brasileiros pelo homem-morcego é a mesma encontrada em outros de vários outros países. O jeito de expressar é que muda de lugar para lugar. Temos no Brasil grandes conhecedores e colecionadores de revistas e objetos do personagem, alguns deles entre os maiores do mundo. Como o universo de Batman é vasto e variado, também existem razões para essa admiração com níveis e focos mais específicos. Um exemplo é o pessoal que cultura mais a série dos anos 60 ou aqueles que gostam do Batman dos quadrinhos criado pela dupla Jim Lee e Joseph Loeb. O ponto em comum a todos é o interesse por um herói d ficção que não tem super-poderes e vence os inimigos usando de obstinação e inteligência.

No documentário que você produziu sobre o Batman, baseado em estudos de semiótica, o que você notou que mais marca o personagem para a cultura brasileira?

Não. O vídeo que produzi nos anos 90 era uma mistura de biografia do personagem que acabara de completar seu cinqüentenário e a análise dos símbolos que sua mitologia carrega. Como personagem multimídia e de grande exposição pela indústria cultural, ele atinge públicos os mais diversos em todo o planeta, que o interpretam também de formas variadas. Deixei de citar no documentário e no dicionário referências legais do personagem na música popular brasileira, por exemplo, como Batmakumba, de Gilberto Gil. Uma citada no livro é Gotham City, canção de Jardes Macalé. Em resumo: tal qual Beatles, o morcegão influenciou nossa cultura moderna sim.

No livro você conta que quando criança, sem o atual requinte da indústria de brinquedos, a meninada improvisava as brincadeiras inspiradas na série de TV. Para a geração de hoje é possível criar aventuras lúdicas com Batman?

Acredito que sim. A criatividade a que eu e outros meninos da minha época tínhamos era fruto da imaginação fértil com um número menor de produtos oferecidos pela indústria brasileira de brinquedos e licenciados pela DC Comics. Além disso, a diferença entre os preços dos bonecos, carrinhos, joguinhos e outros bat-apetrechos e a renda dos nossos pais era maior que a de hoje. Também não havia tanto videogame ultra-realista quanto hoje. O fato é que basta um garoto vestir a máscara de Batman e sair pela rua para brincar de super-herói. Ele também cria enredos para os modelos de plástico que tiver em mãos. É preciso estimular essa triangulação saudável entre brinquedos, criança e imaginação.

Batman passou por várias mudanças estéticas. Para você qual estilo agrada mais aos batmaníacos brasileiros?

Como disse anteriormente, por ter apresentado em 67 anos de história tantas faces e fases, Batman oferece a versão preferida para cada fã. Mas tem muitos, como eu, que gostam de analisar e curtir todos os estilos do personagem, tentando conhecer a complexidade de sua história. Esse gosto pode depender da faixa etária. Acredito, por exemplo, que os adolescente estão delirando com a versão irada do The Batman (O Batman), que chegou à terceira temporada na TV. O Batman do desenho animado do início dos anos 90 é a versão mais aplaudida pelos fãs mais fiéis. Batman Begins também é praticamente uma unanimidade.

Como jornalista você é habilitado de uma série de conhecimentos e teorias sobre a mídia para estudar Batman. Foi difícil abandonar o lado fã para escrever o Dicionário do Morcego?

Não foi difícil. O livro é uma obra explicitamente de fã e direcionada aos fãs. Contudo, creio que ela extrapola esse círculo e pode servir de fonte de pesquisa para especialistas em áreas diversas, admiradores ou não de Batman. Não é mesmo uma obra imparcial e nem teria porque ser diferente. Mas por ter sido escrita por um aficionado, ela tem a consistência própria de uma pesquisa naturalmente profunda. Costumo dizer que não há fonte de pesquisa melhor do que os fãs e fãs-clube porque eles não deixam escapar nada, estão de olho em tudo, permanentemente. São guardiões especiais de relíquias, datas, nomes, lugares, recortes de jornal, fitas de vídeo, longos textos na Internet, fotos ao lado de artistas, livros e sinais indiretos sobre o objeto pesquisado. A paixão é um combustível valioso para se tocar grandes empreitadas. O fã faz do seu prazer um trabalho proveitoso.

Dentre as diversas adaptações do personagem, passado por diversas fases da história mundial, qual mais lhe atrai?

Sem dúvida, a soturna versão produzida por Bruce Timm para os desenhos animados tem muito da “essência” do héroi. Batman Begins também me agradou muito. Os desenhos de Jim Aparo e Norm Breyfogle também me marcaram muito.

A tecnologia e o dinheiro são dois aliados de Batman. O que seria dele sem essas armas?

Certamente não seria o Batman que conhecemos. No máximo, ele seria apenas um vigilante que acabaria caindo numa emboscada dos bandidos ou da polícia, sendo chacinado ou linchado. De todo jeito, seria um herói porque seu coração é piedoso e a sua força de vontade lhe deu músculos, destreza e firmeza de propósito. Poderia virar um líder comunitário, um professor voluntário ou um defensor daqueles que lutam contra as injustiças das ruas. Em resumo: dinheiro é fonte de poder, mas sem propósito e uma dedicação hercúlea, Batman não seria possível nem dentro nem fora dos quadrinhos.

Depois de polêmicas, idas e vindas, onde estaria Robin hoje, se dependesse de você?

Para o modus operandi de Batman hoje, Robin é desnecessário. O Morcegão se comporta sempre como auto-suficiente e pode liderar exércitos inteiros. Mas, apesar de tudo isso, devo dizer que o menino-prodígio já faz parte da memória dos meios de comunicação e está incorporado em definitivo ao universo batmaníaco. O rótulo de homossexual desvirtuou muito a imagem de Robin, sobretudo nos públicos que não acompanham as histórias em quadrinhos. Mas ele também é um personagem interessante.

Excluindo Batman, claro, qual personagem deste universo mítico você mais admira? Um herói? Um vilão?

Sou fã do Universo Batman no geral. Acho o mordomo Alfred um personagem cativante com aquele humor britânico, sempre com uma tirada genial. Ele é um verdadeiro herói, que atua nos bastidores, na retaguarda, discretamente. Fora do mundo da família do Morcego, sou profundo admirador dos Perpétuos, liderados por Sandman. Entre os vilões, Coringa ainda é o número um, apesar do avanço de Rã’s Al Ghul desde os anos 70. O Príncipe Palhaço do Crime ajuda a conhecer um pouco mais do drama existencial do herói Batman. O embate dos dois é sempre rico em significados.

No livro você escreveu um capítulo chamado Desvios onde fala sobre os momentos caricatos e de mau gosto no uso do personagem. Você acha que a indústria de entretenimento se valeria novamente destes artifícios na atualidade ou no futuro?

O risco existe, mas hoje é bem menor que há uma década atrás. O fiasco do filme Batman & Robin (1997) levou os executivos da Warner a repensar os projetos do personagem para a telona. Oito anos depois, os desvios se corrigiram com Batman Begins. O grande desvio gerado pela série de TV (1966), com a dupla dinâmica Adam West e Burt Ward, hoje é encarada como fenômeno da cultura pop e uma faceta debochada do universo do homem-morcego. Desvios sempre vão acontecer, sobretudo nas interpretações independentes. Mas é bom saber que os marcos centrais do homem-morcego estão cada vez mais estabelecidos: tormenta (traumas), solidão, medo (lutar contra ele e usá-lo a seu favor) e implacabilidade.

Quais os próximos projetos literários? Batman continuará sendo objeto de estudo?

Da mesma gaveta que saiu o Dicionário do Morcego existem dezenas de outros projetos que espero desenvolver ao longo da minha vida. Com entusiasmo, tempo disponível e sorte, gostaria de tocar esses projetos. Batman, de todo jeito, sempre será objeto de estudo. Tenho idéias de outras publicações sobre o personagem, só que de abordagem mais vertical, focada. As próximas edições do Dicionário, espero, devem ser ainda maiores e mais completas. A pesquisa mais geral sobre o universo Batman e da Batmania continuarão correndo por fora. Além disso, gostaria de reforçar os intercâmbios com os leitores. Minha curtição é saber mais sobre Batman, suas versões e os efeitos que ele deixa no público.

Inúmeros artistas são convidados a emprestar talentos para roteirizar histórias do personagem. Você escreve ou pretende escrever alguma saga para Batman?

Ainda não. Preciso acumular mais experiência para ousar entrar nesse terreno. Uma das maiores fontes de roteiros de qualidade para Batman nas várias mídias e de paródias sobre o herói está nos fãs. Há até um termo muito prestigiado hoje, o fanfiction, para descrever o trabalho criativo sobre certo personagem feito por fãs.

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